Projeto Memória OSM-SP
Apresentação
“Estes revolucionários de uma outra época envelheceram, mas não parecem cansados. Não sabem o que quer dizer a frivolidade. Sua moral é muda, mas não dá margem à ambigüidade. Ela já não entende mais o mundo. (...) Quem os conhece fica espantado ao ver como são pouco indecisos e como carregam tão pouca amargura, muito menos do que seus visitantes mais jovens. Eles não são melancólicos. Sua cortesia é proletária e a dignidade, de pessoas que jamais capitularam. Não têm que agradecer a ninguém. Não foram “promovidos” por ninguém. Não tomaram nada para si, nem consumiram bolsas de estudo. O bem-estar não lhes interessa. Tem a consciência intacta. Não são tipos acabados: sua disposição física é extraordinária.(...) Não lamentam nada. Suas derrotas não serviram para ensinar-lhes algo ruim. Sabe que cometeram erros, mas não voltam atrás. Os velhos homens da revolução são mais fortes do que tudo que veio depois deles.”
(ENZENSBERGER, Hans Magnus. “O Curto Verão da Anarquia”. São Paulo: Companhia Das Letras, 1987)
Caríssim@s Companheir@s,
Como o
assunto é a Oposição Sindical Metalúrgica
de São Paulo, torna-se necessário "pensar grande".
E esta apresentação se inicia com Hegel. Dizia esse
grande filósofo alemão, inspirador de Marx e Engels,
que a coruja de Minerva levanta vôo somente ao
entardecer.
Essa alusão de Hegel aos símbolos da
sabedoria e do conhecimento revela que, só depois que as
coisas acontecem, só quando o tempo realizou seu trabalho de
fazer a poeira baixar, e revelar o que havia de importante e
essencial nos fatos ocorridos, é então possível
conhecer realmente aquilo que homens e mulheres fizeram em
determinado momento.
Estamos ainda no meio da noite e a coruja
de Minerva não terminou seu vôo. Quando isso vai
acontecer? Daqui a 10, 20 anos? Não se sabe.
Mas quando
esse tempo chegar, muitos de nós que fomos atores e autores da
luta da Oposição teremos a certeza de uma coisa: ficará
registrado na História que fomos os combatentes mais
importantes dessa época, os representantes de uma tradição
operária que vinha de muito longe e à qual nós
demos continuidade:
Lutar contra todo tipo de exploração
e opressão da classe trabalhadora. Defender princípios
e valores que para nós eram sagrados: a democracia operária,
o internacionalismo, a solidariedade, a recusa de todo tipo de
dogmatismo e autoritarismo. Acreditar que é possível,
necessária e urgente a tarefa de mudar a sociedade e criar um
novo mundo onde homens e mulheres possam viver fraternalmente, sem
oprimirem uns aos outros, e onde ninguém mais seja
explorado.
O objetivo do Projeto Memória da Oposição
Sindical Metalúrgica de São Paulo é resgatar o
que foi essa experiência. Pelo testemunho vivo dos sujeitos
dessa História, dirigentes, militantes, apoiadores e
simpatizantes, de todas as tendências e correntes políticas
que tiveram participação nesse processo, sem nenhum
tipo de censura ou discriminação.
Isso vai
exigir o envolvimento de muita gente. Vamos precisar do seu trabalho
voluntário, de uma parte do seu tempo livre, da sua
contribuição financeira. Vamos enfim retomar o que era
feito na Oposição: uma tarefa coletiva, solidária,
onde cada um assume suas responsabilidades e faz o que deve ser
feito.
Assim, quando a coruja de Minerva fizer o seu pouso, a
História fará o seu julgamento com base num material
muito rico, e avaliará o que nós realizamos naqueles
anos, com todos os erros e acertos.
Não queremos que o
resultado deste trabalho acabe nos desvãos de bibliotecas ou
de Universidades. Não queremos que seja um assunto para
saudosismos ou ufanismos inúteis. O objetivo principal é
transmitir às novas gerações operárias
uma experiência que deve ser motivo de estudo e reflexão.
A
tarefa de dar continuidade a essa luta, numa nova conjuntura, com
enormes desafios, mas também com enormes possibilidades, está
colocada para a nossa juventude trabalhadora. E ela dará conta
do recado, com certeza!
O objetivo do Projeto Memória da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo (1960-1990) é resgatar a memória dessa experiência, tornando-a acessível às atuais gerações. Muitos dos que participaram desse movimento foram acumulando documentos, fotos, gravações. Muitos, ainda, têm memórias não registradas daquela época. Há pesquisadores que se dedicaram durante anos ao estudo do movimento sindical, sistematizando parte destas memórias vivas e dos documentos que produziu. Há, ainda, jovens ávidos por experiências mais consistentes de vida e militância política.
30 de novembro de 2007
Elias Stein