Eu venho de um silêncio (Raimón)


Eu venho de um silêncio

antigo e muito longo

de pessoas que vão se levantando

desde o fundo dos séculos,

de pessoas que são chamadas

de classes subalternas,

eu venho de um silêncio

antigo e muito longo.


Eu venho das praças

e das ruas cheias

de crianças que brincam

e de idosos que esperam,

enquanto homens e mulheres

estão trabalhando

nas pequenas oficinas,

na cidade e no campo.


Eu venho de um silêncio

que não é resignado,

de onde começa a horta

e acaba a aridez

do esforço e blasfêmia

porque tudo vai mal:

quem perde as origens

perde a identidade.


Eu venho de um silêncio

antigo e muito longo,

de pessoas sem místicos

nem grandes chefes,

que vivem e morrem

no anonimato,

que em frases solenes

nunca acreditaram.


Eu venho de uma luta

que é surda e constante,

eu venho de um silêncio

que quebrarão as pessoas

que agora querem ser livres

e amam a vida,

que exigem as coisas

que lhes foram negadas.


Eu venho de um silêncio

antigo e muito longo,

eu venho de um silêncio

que não é resignado,

eu venho de um silêncio

que as pessoas romperão,

eu venho de uma luta

que é surda e constante.


Tradução de Pep Valenzuela