Histórico da Oposição Sindical Metalúrgica

A oposição é um fenômeno natural em toda história da sociedade. Ela existe em todos os níveis de organização social e política. Por isso ela não é novidade no movimento operário brasileiro, já que desde que existiu o movimento operário organizado no Brasil, pessoas ou grupos se opuseram as direções legitimas ou ilegitimamente constituídas.

Interessa-nos analisar, porem, a atual Oposição Metalúrgica de S. Paulo em seu histórico, objetivos, linhas de trabalho programas, métodos. Sua realidade hoje, suas conseqüências no movimento operário brasileiro e suas tarefas diante da atual realidade e futuro do sindicalismo no Brasil e, quem sabe? Na transformação da estrutura econômico – social - política brasileira.

Esta oposição tem suas raízes em algumas experiências realizadas em fabricas do GSP a partir de 1961. Fruto de uma analise do movimento sindical brasileiro, decidiu-se pelo movimento de um trabalho de nucleação dentro da fábrica buscando aglutinar companheiros dispostos a debater problemas ocorridos nas empresas. Através disso buscar possíveis saídas que permitissem: conquistar algumas reivindicações e organizar o maior número possível de operários para ampliar a luta. Um dos objetivos centrais era através de discussões e lutas desenvolver a consciência de classe entre os operários.

Isto aconteceu por exemplo na Cobrasma a partir de 1961 e em 1963 o fato se repetia na fábrica de cofres Bernandini. Essas experiências foram confrontadas durante alguns meses quando se concluiu que realmente podiam ser uma alternativa a um sindicalismo vertical que não se ocupava prioritariamente com a organização sindical aos operários nas fábricas, que poderiam mudar o eixo do sindicalismo brasileiro, desde que amplamente desenvolvidas. Por que tal conclusão? Exatamente porque eram movimentos decididos e realizados pelos trabalhadores e não pela direção Sindical, porque atendiam as necessidades dos operários e não aos interesses políticos da burguesia ou partidos no poder. Estas experiências foram confirmadas com outras de Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, P. Alegre ainda em 1963 depois em fins de 64 e ainda em 65. Em 64 já se constituiu uma CSB (Coordenação Sindical Brasileira e depois Coordenação Social Brasileira). A utilização dessa iniciativa por determinado grupo político levou à contestação dos operários participantes e seu desaparecimento.

Em 1967, por ocasião das eleições Sindicais em vários sindicatos, surgiram muitas chapas de oposição (algumas já em 65). Entre elas as de Osasco e S. Paulo (ambas metalúrgicas) tinham um cunho bem mais político. Em S. Paulo decidiu-se por uma chapa de oposição que fosse o núcleo de um "Movimento de Oposição à Estrutura Sindical Brasileira" e não apenas uma chapa de oposição a diretoria. Assim em seu Manifesto a CHAPA VERDE Enfatizava: "Queremos sim, unidades de trabalhadores nas fábricas e no sindicato ..." E no seu programa de lutas: Lutar pela aplicação efetiva do contrato coletivo de trabalho e pelo pleno reconhecimento dos Conselhos de empresas eleitas livremente pelos trabalhadores em cada empresa. Com a devida orientação do sindicato.

Em 1972, novamente a CHAPA VERDE defendiam a organização nas fábricas: "pelo pleno reconhecimento das comissões de empresa e organizar e defender comissões de empresa, isto em seu programa", isto em seu programa. Em 1975 o manifesto assinalava: "entendemos que um sindicato forte representativo precisa estar organizado dentro das empresas". "A oposição sempre defendeu a idéia de que a força do sindicato não está na rua do Carmo mas dentro das empresas"....

Logo após as eleições de 1967 inúmeros companheiros combativos eram convocados, independente de suas tendências políticas, passando a desenvolver-se uma frente permanente de oposição que se ocuparia de: desenvolver núcleos dentro das empresas, preparar a atuação nas assembléias salariais, 1ºde maio ...crítica ao sindicalismo atrelado, combate do peleguismo...............

Neste processo nasceu uma experiência chamada UML (união metalúrgica de luta) composta de companheiros independentes. Isto lá pelos fins de 1968. A UML ganhou força em 1969 com a formação de equipes de militantes em vários setores fabris: Leopoldina, Mooca, Penha, Vila Rica, Anchieta, Sto. Amaro. Diversos núcleos de fábricas se organizaram e levaram muitas lutas embora limitados: Carmos, Arno, Lorenzetti, Lassen, Matarazzo, Walita, Caterpilar, Bourrougns, Monark, Villares, Arteb, AMF, Hobbart Dayton, Piratininga, Same, Philips, Busing, Calvi, Aço Paulista, Mangels, Siemens, Cogeral, Wapsa, Aliperti, Metal Leve... ...Debatia-se constantemente a história do sindicalismo no Brasil, condições de trabalho, partido aos trabalhadores, comissões de fábrica etc. Sem muita rigidez, nas reuniões revia-se aos contatos de fábricas, planejava-se os boletins e preparava-se as assembléias etc. Como resultados dos debates sobre Sindicalismo no Brasil foi elaborado 1970 um livreto sobre a história do movimento Sindical no Brasil. A UML deixa de existir em quanto tal em 1971.

As prisões de 1974, que atingiram dezenas de operários oposicionistas enfraqueceram a oposição em que entre 70 e 72 tentou diversas vezes se reestruturar. Diversos encontros amplos foram realizados e alguns documentos elaborados tentando definir esta organização.

Em 1975, com nova geração assumindo responsabilidades, começa um salto qualitativo. Pode-se dizer também como resultados das derrotas da esquerda que passava a entender melhor a luta operária e sindical.

A forma de organização da Oposição Metalúrgica através de setores fabris foi assumida com decisão e também com consequência das experiências "inter-fábricas" experimentada já na pastoral operária.

De 72 a 75 houve praticamente uma paralisação da oposição. A partir de 75 coloca-se a necessidade de dar uma organicidade e estabilidade maior à oposição. Para isto a irterfábrica foi um salto qualitativo. Ela tinha como objetivo avaliar trabalho de fábrica o que não quer dizer que todo mundo tivesse trabalho de fábrica. A interfábrica foi uma base para dar um avanço na organicidade do movimento.

À medida que os movimentos vanguardistas de esquerda foram golpeados revelou-se que não tinham uma proposta correta para a classe operária. Em termos práticos estes grupos impediram a concretização de certas propostas.

No período de 75 e 76 a Oposição na prática ausentou-se de atuação do sindicato.

Aqui é necessário caracterizar o inicio da "abertura". É necessário ver o avanço prévio de movimentos operários nas fábricas. A greve da Villares de 73 deu um novo impulso e animo a oposição em São Paulo. Antes da greve da Villares houve movimentos significativos no ABC (Mercedes, VW)

As proposta da oposição, independente da sua ligação orgânica, influíram em outros movimentos, setores, lugares. A prática da oposição não estava isolada. Até 73 a oposição dizia aos operários que deviam lutar por objetivos que fossem seus. As greves de 73 mostram que um amplo setor de m.º tomou consciência disso. Isto fortaleceu a oposição a medida em que acontecem na prática dos objetivos que propõe. A partir daí criam-se bases novas (gente nova, animo novo) 1975 marca a assimilação mais efetivas das etapas anteriores.

Quais foram as medidas básicas que foram assumidas por esta oposição?

  • desenvolvimento dos núcleos nas fábricas – comissões

  • estruturação por setor fabril ou residencial para desenvolver as experiências de fábricas

  • a ampliação do movimento enquanto a experiência e não enquanto a tendência

  • uma coordenação com elementos de cada setor: assegurar as propostas dos setores e ajudar a elaborar um plano de trabalho para um conjunto de luta .

Em 1975 não teve chapa para as eleições. Saiu um papel com os pontos básicos dos programas. Já pode ser chamado de programa (independente da chapa). Mesmo antes a questão da organização nas fabricas estavam sempre presentes nas manifestações da oposição. É preciso ver as formas de colocação desta questão (?)

Numa primeira programação em 1971 sobre Comissões de Fábrica, a briga pela negemonia destroçou o programa. Posteriormente se aceitou as "regras do jogo" o que deu uma eficácia prática ao programa (a partir de 75 quando se tornou uma alternativa orgânica).

O QUE SIGNIFICOU EM TERMOS GLOBAIS PARA A OPOSIÇÃO DO ESTABELECIMENTO DO PROGRAMA DE 75?
  • a prática de Oposição Sindical deve ser mantida.

  • o que além disso?...

  • como enfrentar a volta do reformismo?

  • como concretizar a quebra da estrutura sindical?

A estruturação da OS. atingiu 8 setores. Desenvolveu-se a pratica da democracia interna com os principais problemas sendo discutidos a partir dos setores e decididas em assembléias constituídas de delegados (representatividade). Nestas assembléias se decidia da orientação, programas e táticas de luta. Outras questões eram resolvidas na coordenação com propostas de setores. Foi a época em que a oposição mais se desenvolveu nas fábricas, nos setores e na participação sindical (apesar da ausência no sindicato no dia 1ºde maio de 76 e 77.

Apesar das decisões quanto a estrutura, linha de ação, programa e direção serem tomadas em assembléias e por maioria, existem setores que durante muito tempo combateram e tentaram boicotar o trabalho da OS., negando a validade da coordenação eleita, não comparecendo as reuniões da coordenação, não levando mais vezes as decisões para as bases e vive - versa e negando-se a distribuição dos boletins da OS. Houve mesmo tentativa de reformação de outra oposição (renovação sindical).

Em 1978 a OS. teve seu ponto culminante. A formação da chapa 3 surge como resultados dos trabalhos de fábrica. Dentro de muitas fábricas discute-se a indicação de companheiros para chapa, o programa é discutido em fábricas e nos setores. Embora tenha havido tentativas de impedir a participação dos companheiros, indicados nas fábricas e nos setores, chegou-se a uma certa unidade na formação da chapa. Durante a campanha apesar de um bom trabalho nos setores sentiu-se a ausência da oposição da Lapa e Zona Norte. Destacou-se a combatividade da maioria dos companheiros durante as eleições.

As greves de maio / junho / julho foram o resultado do bom trabalho de base que se desenvolvia nos setores: nucleação nas empresas, constante divulgação ao nosso programa culminando com o programa da chapa 3 e a intensa preparação da greves. Tudo marca também uma mudança qualitativas das greves de São Paulo em relação ao ABC. E mostram a justeza do trabalho da OS. Concretizaram-se varias comissões eleitas que são as experiências mais importantes a serem hoje analisadas. Da sua compreensão depende o rumo do sindicalismo brasileiro.

Na campanha salarial de 78 a diretoria usou a linguagem e propostas típicas da OS. e não se pelegava. Isto se contrapõe a luta pela reposição em São Paulo que se resumiu uma assembléia e uma carta enviada as empresas (na época já havia um clima bastante favorável de luta que já vinha da OS. de 77 que foi bastante concorrida e só foi esvaziada por uma grande manobra da diretoria.

De 64-72 houve uma participação intensa de "velhos" da oposição nas assembléias. A partir de 77 a OS. consegue novamente tomar pé com intervenções nas assembléias. Isto foi base uma ação mais decidida juntando com a experiência das greves do ABC.

A crise após a OS. de 78 se deve a muitos fatores:

  • após a eleições de junho se tentou fazer assembléias semanais, o que esvaziou alguns setores e fez com que o conjunto se desarticulasse

  • a incapacidade de organizar / articular os trabalhos surgidos com as greves de maio / junho

  • dispensa em muitas fábricas após as greves maio / junho desmobilizou. Por parte do pessoal novo houve um recesso após a derrota das eleições

  • a utilização intensa do sindicato

  • a incapacidade da oposição de formar militantes e dirigentes

  • a fraqueza de direção enquanto o conjunto abriu brechas para a atuação dos grupos

  • a incapacidade de dar uma saída para greve geral deu uma sensação de impotência organizativa e política

Durante o processo das greves de junho a proposta de comissões teve aceitação / implantação ampla mais não se conseguiu dar continuidade a esta proposta.

  • na OS. não se retomou a forma organizada das greves de junho. Na medida que não se conseguiu formar comissões não havia saída para a OS.

  • pesou a imaturidade do conjunto do movimento operário em relação a este tipo de luta (greve geral)

  • falta de uma proposta político – organizativa da direção da oposição.

  • Após a campanha eleitoral e as greves de junho houve um esforço de interpretação das greves e aprofundamento e funcionamento das comissões. Enquanto a atenção estava voltada para isso surge a C.S. e pega a OS. desarticulada

  • Tudo isto dentro da atual conjuntura: novas proposta políticas e a volta de proposta sindicalistas tradicionais (a volta da prática cupulista: "fazer com que o sindicato assuma"

TAREFAS DA OS. HOJE

  1. Sindicato – Ter uma atuação mais consequente no sindicalismo brasileiro. A OS. rejeitou sempre uma prática sindical mais ampla e mais constante. A ausência da OS. do sindicato foi com fraqueza e por erro de visão e supervalorização do trabalho de fábrica. ("o sindicato é atrelado e policialesco, por isso não dá")

  • os sindicalistas autênticos – não são representantes autênticos da classe operária mais contribuem para aguçar as contradições.

  • Permitem uma informação e concientização maior da massa.

  • É o caso de disputar o espaço e influência com eles. Não tanto nos programas (que são semelhantes) mas pela prática concreta.

  • A OS. não atingem o conjunto. Ela se estende mais em momentos definidos pela vida sindical e não por ela mesma.

  1. Trabalho de fábrica – a OS. tem se reforça-lo para se opor ao sindicalismo pelego e autentico. As comissões já mostraram uma palavra de ordem justa. As comissões tem ainda um caráter propagandístico, só pode ser viabilizadas havendo grupos de fábrica bem preparados (p. ex. greves de junho)

  • definir o papel das comissões

  • fazer com que a classe operária assuma a organização e defesa das comissões

  • as comissões ultrapassam o terreno da luta sindical: a questão do duplo poder na fábrica, o controle operário da produção – se as Comissões não assumem este nível, não podem encarar a solução aos problemas do trabalhadores

  1. Continuidade – Se após a C.S. não tivesse havido uma reação rápida a OS. tinha ido. (pra onde?)

  • A OS. deve manter sua política e estrutura própria (não aceitar: as oposições devem se diluir e serem só chapas eleitorais de oposição).

  • Se a OS. não tem vida própria não é aceita em canto nenhum. As oposições são aceitas e "reconhecidas" hoje por causa do seu trabalho desenvolvido como oposição. Já há uma aceitação para os vários setores da sociedade em que a oposição e defensora dos interesses operários.

  1. Organização Geral da OS. – proposta mais afirmativas devem resultar de um balanço critico da história da OS.