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Cordéis de Pedro Macambira
PREFÁCIO por Florestan Fernandes
O Sr. Cleodon Silva distingiu-me com um convite
para prefaciar este livro de combate sindical e proletário. Como não me
dediquei ao estudo da literatura de cordel e à sua irradiação pelo
Brasil, acompanhando as migrações internas de grupos e de culturas,
acredito que é ao companheiro socialista que ale apela. Não me furto,
em conseqüência, ao gesto de solidariedade a quem demonstra, de modo
cabal, uma integridade política e uma coragem a toda prova, seja no
desmascaramento ao peleguismo, seja na oposição à ditadura, seja na
tentativa de despertar uma consciência operária rebelde e militante.
Esses três pontos marcam os conteúdos das composições reunidas neste
livro e situam o seu autor entre os melhores representantes do novo
sindicalismo de vanguarda.
Lamento que tenha procurado a mim e não a um
dos companheiros a quem destinou suas composições político -
literárias. É um veso tomar o intelectual como ponto de referência.
Ora, neste caso, só os consumidores-atores poderiam dizer da eficácia
daquelas composições, como as receberam e como as aproveitaram. Eu só
poderia ventilar a intenção pedagógica que atravessa todas as
composições. A forma poesia popular foi adotada como expediente de
comunicação, um meio para alcançar melhor a grande massa de peões de
origem rústica (predominante nordestina), incorporada ao proletariado
paulistano. Uma coisa, porem, é a intenção. Outra, possivelmente, o
resultado. Por isso, não tenho como avaliar os efeitos práticos e tão
pouco saberia manifestar-me sobre o valor das composições à luz dos
critérios da produção desse tipo de poesia.
Ficando no plano formal, parece-me indiscutível
o teor positivo da tentativa. No momento mesmo em que a
industrialização maciça configura historicamente o novo proletário e
revela que este possui duas faces contrastes - a vanguarda, que surge
da indústria de ponta, e o peão que emerge como o super - explorado do
sistema (1) - é deveras importante dedicar atenção específica à grande
massa de peões. Estes colocam problemas centrais, na esfera da
socialização política e da resocialização humana. Eles nascem para a
condição operária, para a vida na metrópole e para a atividade sindical
ou para a ação política divergente. Não seria de esperar que
caminhassem para o sindicalismo e a identificação com o socialismo espontaneamente.
A forma literatura popular permite simplificar e clarificar a
comunicação de novos valores e identidades sociais. Esse ângulo
valoriza as composições e sugere, ao mesmo tempo, que o movimento
operário e sindical possui suficiente vitalidade para dar-se
contingente, no qual repousa uma grande parte de seu potencial de luta
política.
Todavia, há um questionamento a ser feito. Os
peões enfrentam uma situação humana contraditória: em processo de
desenraizamento, eles precisam adquirir novas raízes. Ao deixar
a identidade rústica e nordestina, a condição de trabalhador semi-livre
do campo, ele perpetua a condição de homem pobre e espoliado e adquire
a identidade emergente de operário. Dialeticamente, ele se
libera de uma polarização sócio-econômica e se projeta pelo trabalho,
em um engolfamento urbano-industrial pelo qual sai de uma modalidade de
excesso da população para engrossar os quadros do exército industrial
ativo. Por isso, percorre simultaneamente duas trajetórias: uma, de
desenraizamento inicialmente parcial da cultura rústica; outro, de
aquisição da condição proletária. Trata-se de um movimento muito
rápido, centrado na força de trabalho como mercadoria, na capacidade do
capital de produzir e reproduzir os tipos de trabalhador assalariado de
que necessita. O que é essencial é que não se perca de vista, nesse
movimento, a importância das novas raízes, aquelas que irão determinar
o nascimento de novos proletários e os rumos do desenvolvimento da
classe operária no Brasil. Se é importante não despojar esse operário
se sua condição humana anterior (o que confere um significado especial
à cultura rústica de que é portador), também é importante não privar
esse operário da oportunidade que ele encontra de participar de uma
comunidade de trabalhadores assalariados que dispõe de meios próprios
de auto-afirmação e de auto-emancipação (o que confere um significado
especial à cultura urbano-proletárias que deve ser adquirida).
Desenraizamento-enraizamento como processos interdependentes, cujas
fronteiras não estão só no aqui e no agora, pois elas dizem respeito ao
futuro imediato e remoto do proletariado como classe social.
Dessa perspectiva ampla, percebe-se a conexão
da forma poesia popular com a socialização política do operário ainda
no limite de sua identidade de origem. As composições, por seu
conteúdo, visam transmitir informações, atitudes e um código ideológico
completo, de corte sindicalista. "A Aparição de Paraíba e os Abusos da
JURUBATUBA S/A" e "Chegou a hora. Nós e os patrões" ilustram
exemplarmente o percurso desse processo.
A identidade de origem não é posta em questão
(a própria forma de poesia popular salienta a sua valorização
positiva). Contudo, os sinais são dados em ermos das exigências da nova
situação humana, o que evidencia positivamente a condição proletária e
a relação do proletário com seu próprio mundo, com o capital e a
exploração capitalista, com o sindicato e com as lutas de classe. O ser social não pode manter-se o mesmo.
Ele precisa redescobrir-se e ter consciência de que é força de
trabalho, agente de produção de uma mercadoria especial, e que é por aí
que ele deve defender-se e afirmar-se. O sindicato é posto no centro de
um novo mundo de solidariedade humana e de luta social e, através dele,
se desmascara a relação trabalho-capital e se estrutura uma percepção
radicalmente inconformista do conteúdo político da luta de classes.
O questionamento a que me reportei refere-se até onde é necessária ir, nesse duplo processo de desenraizamento e de enraizamento in status nascendi.
Está em voga uma concepção que lembra as idéias dos populistas russo. O
"amor ao povo" deveria incitar um comportamento estático. Nada de
desencadear influências socializadoras (ou resocializadoras) "a partir
de cima"... O peão poderia criar o seu nicho humano e nele
restabelecer as bases se sua vida tradicional. Esse "respeito pela
pessoa" e pelas "pautas populares da cultura" é soberbo! Como se
constituiu e o que representa a comunidade popular rústica? Ou, ainda
que probabilidade de auto-defesa e de auto-confirmação teria o peão
entregue às relações do capital sem uma socialização adequada? O certo
é que o capital e o Estado não deixam de por em prática as influências
(repressivas e opressivas) "a partir de cima", com uma prepotência que
no Brasil é secular. O que vamos fazer? Esperar que a classe operária
descubra, por acaso, sua identidade própria e encontre no socialismo (e
não no "obreirismo" ou no "espontaneísmo operário") seu modo de ser diante e contra o sistema capitalista?
O solo do capital não é o solo proletário. A
contradição antagônica entre capital e trabalho abre uma muralha da
China entre os dois mundos. Não há sentido em tomar uma posição passiva e reflexiva
("puramente ética") em face das heranças culturais que permitem a
constituição da classe operária caótica e multi-facetada sociedade
brasileira. A vanguarda da operária é parte natural da formação e do
desenvolvimento da classe operária. É preciso impelir o peão na direção
de sua condição operária e de todos os seus requisitos, materiais,
morais e políticos. Não haveria porque defender um sindicalismo
conseqüente e independente sem defender-se, ao mesmo tempo, a
existência de uma vanguarda operária orgânica e, nas presentes
condições históricas do Brasil, uma democracia proletária.
Tudo significa que o Sr. Cleodon Silva está
prestando um serviço inestimável ao movimento sindical a uma renovação
coerente das linhas de ação propriamente políticas do sindicato. O
sindicato não pode furtar-se ao impacto do meio: ele é fraco não só
pela força do capital - nacional e estrangeiro; ele é fraco pela
fraqueza intrínseca do movimento operário, a base real do sindicato (e,
também, em outro nível de discussão, do partido político proletário). O
sindicato "assistencialista" apega-se ao muro de suas fraquezas e
carências. Acomoda-se a elas e, com isso, multiplica a capacidade
opressora e espoliadora do capital e do Estado. Uma pedagogia ativista
vai na direção oposta. Ela parte das realidades concretas, com o fito
de transformá-las. Tal transformação nunca será um prêmio, um "produto
final" acabado. Ela precisa ser conquistada dia a dia, duramente,
através da própria transformação do proletário - ou do semi-proletário,
o que é o peão, na dinâmica da vida nas fábricas. Sem os peões,
o ABC, suas lutas sindicais e suas greves, não seriam nada. Ficaria
faltando dimensão e densidade políticas. Se os peões permaneceram como
estão, o ABC passará rapidamente de um clímax para a ação domesticada e
conformista. A saída natural consiste em descobrir uma
pedagogia apropriada, que acelere não só a resocialização do peão, mas
que propicie sua doutrinação sindicalista e sua crescente identificação
com o socialismo proletário. O que sugere que o esforço contido neste
livro deve ser multiplicado na escala de cem mil, com a descoberta e a
aplicação correta de novos métodos.
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